quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Mãos e Rostos.



Não  se  passou  nem  meio  minuto  desde  que  August  se  afastou  e  Marlena  se levanta  e  pega minha mão.
- O que você está fazendo? - pergunto, rindo enquanto ela me puxa pelo braço.
- Venha! Vamos dançar!
-O quê?!
- Eu amo esta música!
- Não... eu...
Mas não adianta. Já estou de pé. Ela me arrasta para pista, requebrando e estalando os  dedos. No momento em que estamos rodeados por outros casais, ela se vira para mim.
Respiro  fundo  e  então  a  tomo  nos  braços.  Esperamos  alguns  compassos  e  depois  nos  deixamos  levar,  flutuando  pela  pista  de  dança  como  se  tivéssemos  caído  num  agitado  mar de gente.
Ela  é  leve  como  o  ar - não  perde  um  passo,  o  que  é  uma  façanha,  considerando que  estou todo atrapalhado. Não é que eu não saiba dançar. Eu sei. Não consigo entender o  que há de errado comigo. Tenho certeza de que não estou bêbado.
Ela rodopia, afastando-se de mim, e depois volta, passando por baixo do meu braço, o  que  faz  suas  costas  ficarem  pressionadas  contra  mim.  Meu  antebraço  descansa  em  sua  clavícula,  pele  contra  pele.  O  peito  de  Marlena  se  move  para  cima  e  para  baixo  sob  o  meu  braço.  A  cabeça  está  debaixo  do  meu  queixo.  Sinto  o  cheiro  de  seu  cabelo  e  o  corpo  delicado  aquecido  pelo  esforço.  E  então  ela  se  afasta  de  novo,  desenrolando-se  como uma fita.
Quando  a  música  pára,  os  dançarmos  assobiam  e  batem  palmas  com  os  braços  acima  das  cabeças,  nenhum  deles  tão  entusiasticamente  quanto  Marlena.  Dou  uma  olhada  rápida  para  o  nosso  boxe.  August  está  olhando,  atento  e  inquieto,  com  os  braços  cruzados. Assustado, afasto-me de Marlena.
- Polícia! Por um momento tudo se congela e, em seguida, ouve-se o segundo grito.
- Polícia! Saiam todos! Sou impulsionado para frente por uma multidão. Todos gritam e  se empurram, numa tentativa frenética de chegar à saída. Algumas pessoas me separam  de Marlena, que olha para trás por entre cabeças que se balançam e rostos desesperados.
- Jacob! - ela grita. - Jacob! Luto para me aproximar dela, lançando-me entre as pessoas.
Consigo agarrar uma mão naquele mar de corpos e sei que é de Marlena pela expressão  em  seu  rosto.  Aperto-a  com  firmeza,  passando  os  olhos  pela  multidão  à  procura  de  August. Só vejo estranhos.
Marlena e eu somos separados ao chegarmos à porta. Segundos depois, me vejo cuspido  numa  ruela.  As  pessoas  gritam  e  se  amontoam  dentro  dos  carros.  Motores  arrancam,  buzinas guincham e pneus cantam.
- Vamos! Vamos! Saiam daqui!
- Corram!
Marlena surge sabe-se lá de onde e segura minha mão. Fugimos rapidamente ao som de  sirenes  e  apitos.  Quando  ouço  os  tiros,  puxo Marlena  e  nos  escondemos  numa  ruela  ainda menor.
- Espere - diz ela ofegante, fazendo uma pausa e se equilibrando num pé enquanto tira  um sapato. Em seguida, se apóia no meu braço enquanto tira o outro. - Tudo bem - diz  ela, segurando os dois sapatos numa das mãos.
Corremos até pararmos  de ouvir as sirenes,  a multidão e os guinchos de pneus, depois  seguimos  por  ruas  e  ruelas  afastadas.  Por  fim,  paramos  debaixo  de  uma  escada  de  incêndio para recuperar o fôlego.
- Ai, meu Deus! - exclama Marlena.
- Ai, meu Deus! Essa foi por pouco. Será que August conseguiu escapar?
- Espero  que  sim - respondo,  também  ofegante.  Eu  me  inclino,  apoiando  as  mãos  nas coxas.
Em  seguida  levanto  os  olhos  para  Marlena.  Ela  me  encara  e  respira  pela  boca e logo começa a rir histericamente.
- O que foi?
- Ah, nada - diz ela.
- Nada.
- Ela continua a rir, mas parece estar à beira das lágrimas.
- O que foi? - repito.
- Ah! - diz  ela,  fungando  e  levando  um  dedo  ao  canto  do  olho. - Esta  vida  é  muito maluca, só isso. Você tem um lenço? 
Procuro nos bolsos e tiro um lenço de um deles. Ela o pega e enxuga primeiro a testa e  depois o resto do rosto.
- Ai, mas estou um horror. E olhe só as minhas meias! - reclama, apontando para os pés  descalços. Os dedos aparecem  através de um furo. - E elas são de seda! - Sua voz soa  aguda e pouco natural.
- Marlena, você está bem? - pergunto delicadamente.
Ela leva a mão fechada à boca, aperta e geme. Estendo a mão para pegar seu braço, mas  ela  se  afasta.  Em  vez  de  permanecer  de  frente para parede,  como  eu  esperava,  ela  continua a girar como se executasse uma dança religiosa. Depois do terceiro giro, eu a  tomo  pelos  ombros  e  pressiono  a  boca  contra  a  dela.  Ela  se  enrijece  e  tenta  respirar,  sugando  o  ar  que  sai  por  entre  os  meus  lábios.  Pouco  depois,  ela  relaxa.  As pontas  de  seus dedos tocam meu rosto. E então ela se afasta de repente, dá muitos passos para trás  e me fita com olhos assustados.
- Jacob - sua voz está transtornada.
- Ai, Deus... Jacob!
- Marlena - dou um passo à frente e paro.
- Desculpe. Eu não devia ter feito isso.
Ela me encara, apertando a mão contra a boca. Os olhos são dois vales escuros. Então  ela se encosta à parede, calça um sapato e olha para o asfalto.
- Marlena, por favor.
- Estendo as mãos, inutilmente.
Ela põe o segundo sapato e se afasta correndo. Tropeça e segue em frente, cambaleando.
- Marlena! - grito e dou uma pequena corrida.
Ela aumenta a velocidade, levanta a mão cobrindo o rosto, para escondê-lo de mim. Paro.
Ela continua a andar, os saltos fazendo barulho ruela abaixo.
- Marlena! Por favor! Eu a observo até ela virar a esquina. Sua mão permanece ao lado  do rosto, provavelmente para o caso de eu ainda estar olhando.


# Água para Elefantes- Sara Gruen.