domingo, 30 de outubro de 2011

Meias palavras.




Quando cheguei ao quarto, vi que Jesse já estava de pé. 
Em geral ele não faz visitas matinais. Por outro lado, normalmente eu não durmo durante trinta e seis horas direto, por isso acho que nenhum de nós estava seguindo rigidamente a programação. 
De qualquer modo, eu não esperava encontrá-lo ali, por isso pulei mais de meio metro e escondi às costas a mão que segurava sua miniatura. 
Puxa, qual é! Não quero que ele ache que eu gosto dele nem nada. 
- Você acordou - disse ele do banco da janela, onde estava sentado com Spike e um exemplar de Steal This Book, de Abbie Hoffman, que eu tinha roubado da estante de minha mãe lá embaixo. 
- É ... - falei, deslizando até a cama. Talvez, se fosse suficientemente rápida, poderia enfiar a pintura embaixo do travesseiro antes que ele notasse. - Acordei sim. 
- Como está se sentindo? 
- Eu? - perguntei como se houvesse mais alguém no quarto com quem ele pudesse estar falando. 
Jesse pousou o livro e me olhou com outra daquelas expressões. Você sabe, do tipo que eu nunca consigo decifrar. 
- Estou ótima. 
- Bom. Precisamos conversar. 
De repente não me sentia mais relaxada. De fato, saltei de pé. Não sei por que, mas meu coração começou a bater muito depressa. 
Conversar. Sobre o que ele quer conversar? Minha mente ia a duzentos por hora. Acho que deveríamos conversar sabre a que tinha acontecido. Quero dizer, foi bem apavorante e coisa e tal, quase morri, e, como Paul disse, tenho um monte de perguntas. 
Mas e se fosse sobre isso que Jesse queria falar? Quero dizer, sabre a parte em que quase morri? 
Eu não queria falar disso. Porque o fato é que toda essa parte, a parte em que quase morri, bem, quase morri tentando salvá-lo. Sério. Esperava que ele não tivesse notado, mas pela sua cara dava para ver que tinha, totalmente. Quero dizer, notado. 
E agora queria falar sobre isso. Mas como é que eu poderia falar sabre isso? Sem deixar escapar. Quero dizer, a palavra que começa com "a". 
- Sabe de uma coisa? - falei bem depressa. - Não quero conversar. Tudo bem? Realmente, realmente não quero conversar. Estou cheia de conversas. 
Jesse tirou Spike do colo e o pousou no chão. Depois se levantou. 
O que ele estava fazendo? O que ele estava fazendo? Respirei fundo e continuei falando sobre não falar. 
- Só estou ... olha - falei enquanto ele dava um passo na minha direção. - Só vou ligar para Cee Cee e talvez a gente vá à praia ou algo assim. Porque realmente ... preciso de uma folga. 
Outro passo na minha direção. Agora ele estava bem na minha frente. 
- Principalmente de conversas - falei de modo significativo, olhando para ele. É disso que eu preciso especialmente de uma folga. De conversas. 
- Ótimo – respondeu Jesse. Em seguida estendeu as mãos e segurou meu rosto. - Não precisamos conversar. 
E foi então que ele me beijou. Na boca.  




# A MEDIADORA: 4 – A Hora Mais Sombria.