sábado, 1 de outubro de 2011

Admirador.





- Em que estás a pensar? - pergunta ela.
 
Agora já é crepúsculo. Deixámos o nosso banco e vamos arrastando os pés ao longo de caminhos iluminados que serpenteiam à volta deste complexo. Ela dá-me o braço, e eu sou o seu acompanhante. A ideia foi dela. Talvez esteja seduzida por mim. Talvez queira impedir que eu caia. De qualquer maneira, estou a sorrir para comigo.
 
- Estou a pensar em ti.

Não reage a isto com mais que um apertão no braço, e posso dizer que gostou do que eu disse. A nossa vida juntos permitiu-me perceber os sinais, mesmo se ela própria não os conhece. Continuo:
- Sei que não consegues lembrar-te de quem és, mas eu posso, e descubro-o quando olho
para ti, e faz-me sentir bem.
Dá-me umas palmadinhas no braço e sorri.
- Tu és um homem bondoso com um coração amante. Espero ter gostado de estar contigo antes tanto como gosto agora.
Continuamos a andar mais um pouco. Por fim diz:

- Tenho que te dizer uma coisa.
- Vá em frente.
- Acho que tenho um admirador.
- Um admirador?
- Sim.
- Sei.
- Não acreditas em mim?
- Acredito.
- Devias acreditar.
- Porquê?
- Porque acho que és tu.
 
Penso nisto enquanto caminhamos em silêncio, apoiando-nos um ao outro, para lá dos quartos, para lá dos pátios. Chegamos ao jardim, na maioria flores selvagens, e faço-a parar. Apanho um ramo - flores vermelhas, rosa, amarelas, violeta. Dou-lho, e ela leva-as ao nariz. Cheira-as de olhos fechados e murmura, "São lindas." Acabamos o nosso passeio, eu numa mão, as flores na outra. As pessoas observam-nos, porque somos um milagre ambulante, ou assim mo dizem. De uma maneira é verdade, embora na maioria das vezes não me sinta com sorte.
- Achas que sou eu? - pergunto por fim.
- Sim.
- Porquê?
- Porque descobri o que tu escondeste.
- O quê?
- Isto - diz, mostrando-me uma tira de papel. - Descobri isto debaixo da minha almofada.
Leio-o, e diz:
 

O corpo abranda com dor mortal, mas a minha promessa
mantêm-se verdadeira no cerrar dos nossos dias,
Um toque terno a acabar num beijo
acordará o amor em modos de alegria.

 
- Tens lá mais? pergunto.
- Encontrei este no bolso do meu casaco.

 
Se queres saber, as nossas almas foram uma
e nunca poderão vir a ser separadas
A tua face radiante ao crepúsculo esplêndido
Procuro por ti e encontro o meu coração.


- Estou a ver - e é tudo o que digo.


#Diário da Nossa Paixão - Nicholas Sparks.