sábado, 9 de julho de 2011

Jura.



Foi esquisito, porque, você sabe, eu tinha acabado de fingir que estava chorando, e, de repente, estava mesmo.
- Jesse – falei numa horrenda voz fungada (fingir que vai chorar é muito melhor do que chorar, já que há muito menos muco envolvido) -, desculpe, mas simplesmente não é possível. Quero dizer, eu sei. Já fiz isso cem vezes. Quando eles descobrirem seu corpo, acabou. Você vai embora.
   - Suzannah – disse ele outra vez. E dessa vez não tocou simplesmente minha bochecha. Pôs a mão em concha num dos lados do meu rosto...
   Ainda que o efeito romântico fosse um tanto arruinado pelo fato de que ele estava meio rindo de mim. Mas, para lhe dar crédito, ele parecia se esforçar tanto para não gargalhar quanto eu me esforçava para não chorar.
   - Prometo, Suzannah – disse ele com um monte de pausas entre as palavras para dar ênfase -, que não vou a lugar nenhum, quer seu padrasto encontre ou não meu corpo no quintal. Certo? 

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- Verdade? Promete?
   Jesse riu e soltou meu rosto. Então enfiou a mão no bolso e pegou uma pequena coisinha com acabamento de renda, que eu reconheci. O lenço de Maria de Silva. Ele o havia usado para limpar vários cortes e arranhões que recebi no serviço de mediação. Agora usou para enxugar minhas lágrimas.
   - Juro – disse ele, rindo. Mas só um pouquinho. 

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Sem dúvida era estranho ir dormir sabendo que alguém ficaria sentado, vigiando seu sono. Mas depois de me acostumar com a idéia, era legal saber que ele estava ali, com Spike, no sofá-cama, lendo à luz de seu próprio brilho espectral um livro chamado Mil anos, que ele havia achado no quarto de Mestre. 

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Acho que por fim devo ter caído no sono, já que quando abri os olhos de novo era de manhã, e Jesse ainda estava lá. Tinha acabado Mil anos e tinha passado para um livro da minha estante, chamando As pontes de Madison, que ele parecia achar tremendamente divertido, ainda que tentasse não rir alto a ponto de me acordar.
   Meu Deus, que constrangedor.
   Nesse momento não percebi que era última vez que iria vê-lo.



# Série " A Mediadora" - *A Hora Mais Sombria, Meg Cabot.