quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

RESGATE (Parte 2)



O marido levou-a ao divã onde ela deixou-se cair prostrada de fadiga ou de sono.
Não tendo soltado logo o braço de Seixas, este reclinou-se para acompanhar-lhe o movimento, e achou-se debruçado para ela.
Aurélia conchegou as roupas fazendo lugar à beira do divã, e acenando com a mão ao marido que se sentasse. Entretanto com a cabeça atirada sobre o recosto de veludo, o colo nu debuxava sobre o fundo azul um primor de estatuária cinzelado no mais fino mármore de Paros.
Seixas desviou os olhos como se visse diante de si um abismo. Sentia a fascinação, e reconhecia que faltavam-lhe as forças para escapar à vertigem.
- Até amanhã? disse ele hesitando.
- Veja se não tenho febre!
Aurélia procurou a mão do marido e encostou-a na testa. Debruçando-se para ela com esse movimento, Seixas roçara com o braço o contorno de um seio palpitante. A moça estremeceu como se a percutisse uma vibração íntima, e apertou com uma crispação nervosa a mão do marido que ela conservara na sua.
- Aurélia, balbuciou Fernando que a pouco e pouco resvalara do divã, e estava de joelhos, buscando os olhos da mulher.
Ela ergueu de leve a cabeça, para vazar no semblante do marido a luz dos olhos, e sorriu. Que sorriso! Uma voragem, onde submergiam-se a razão, a dignidade, a virtude, todas essas arrogâncias do homem.
Seixas ia precipitar-se; mas os olhos de Aurélia o queimavam; escapava daquelas pupilas cintilantes um fogo intenso que penetrava-lhe n'alma como lava em ebulição. Ele voltou o rosto para o lado da porta, como receoso de que estivesse aberta.
Aurélia cerrara as pálpebras e atirara de novo a cabeça sobre a almofada, com esse delicioso abandono, em que o corpo remite-se depois de um excessivo exercício. Fernando na mesma posição contemplava a formosa mulher, que ele tinha ali, palpitante sob o seu olhar e ao contato do peito onde fervilhavam os frocos de renda do talhe do vestido, aflando ao vivo ofego da respiração.
E todavia não ousava. Nunca, nos tempos em que ele fazia o contrabando do amor, mulher alguma, por mais defesa que fosse a seu desejo, inspirou-lhe respeito, ou antes o susto, que o tolhia naquele momento junto de sua esposa.
A moça levantou o braço com um gesto de enfado e deixou-o sobre o recosto do divã, donde foi deslizando fracamente para o ombro de Seixas. À doce pressão dessa cadeia que o cingia, ele vergou a cabeça e chegou a embeber a flor dos lábios nas tranças de cabelos que borbulhavam em anéis pelas espáduas e refluíam pela face de Aurélia.
Mas a moça voltara a cabeça escondendo o rosto no acolchoado de veludo, com um
gesto rápido, ao passo que retraíra a mão para velar a face. Bastou este movimento, que
não passava talvez de frágil resistência da castidade, para reprimir o impulso de Seixas.
Depois de um instante de perplexidade ia levantar-se, quando Aurélia surgiu arrebatadamente do torpor e languidez que a prostravam, e sentando-se no divã, obrigou o marido a ajoelhar-se de novo a seus pés. Apoiando-lhe então a mão na fronte, vergou-lhe a cabeça, e cravou-lhe no semblante um olha longo, penetrante, que parecia submergir-lhe na consciência daquele homem, e sondar-lhe os arcanos.
- Não me engana? Ama-me enfim? perguntou ela com meiguice.
- Ainda não acredita?
- Venceu então o impossível?
- Fui vencido por ele.
- Essa felicidade não a tenho eu!... exclamou a moça erguendo-se do divã, e caminhando pela sala com o passo frouxo e a cabeça baixa.
Fernando que a seguia com o olhar surpreso, viu-a aproximar-se de um quadro colocado sobre um estrado e contra a parede fronteira.
A cortina azul do dossel correu; à luz do gás que batia em cheio desse lado, destacou-se do fundo do painel o retrato em vulto inteiro de um elegante cavalheiro.
Era o seu retrato; mas do mancebo que fora dois anos antes, com o toque de suprema elegância que ele ainda conservava, e com o sorriso inefável que se apagara sob a expressão grave e melancólica do marido de Aurélia.
- O homem que eu amei, a que amo, é este, disse Aurélia apontando para o retrato. O senhor tem suas feições; a mesma elegância, a mesma nobreza de porte. Mas o que não tem é sua alma, que eu guardo aqui em meu seio e que sinto palpitar dentro em mim, e possuir-me, quando ele me olha.
Aurélia fitou o retrato com delícia. Arrebatada pela veemência do afeto que entumecia-lhe o seio, pousou nos lábios frios e mortos da imagem um beijo férvido, pujante, impetuoso; um desses beijos exuberantes que são verdadeiras explosões da alma irrupta pelo fogo de uma paixão subterrânea, longamente recalcada.
Seixas estava atônito. Sentindo-se ludíbrio dessa mulher, que o subjugava a seu pesar, escutava-lhe as palavras, observava-lhe os movimentos e não a compreendia. Chama a si a razão, e esta fugia-lhe, deixando-o extático.
Aurélia acabava de voltar-se para ele, soberba de volúpia, fremente de amor, com os olhos em chamas, os lábios túrgidos, e o seio pulando aos ímpetos da paixão:
- Por que meu coração que vibra assim diante desta imagem, fica frio junto a ti? Por que seu olhar não penetra nele, como o raio desta pupila imóvel? Por que o toque de sua mão não comunica à minha esta chama que me embriaga como um néctar?
Aurélia parou de repente. Uma onde de rubor banhou-lhe o rosto mimoso. Atalhada no ímpeto da paixão por um assomo de pudor, ela confrangeu-se como a flor da noite ao raiar da luz. Suspendeu a capa de caxemira que lhe tinha resvalado dos ombros para a cintura, e envolvendo-lhe com o estremecimento de um calafrio, encolheu-se no canto do divã.
Seixas aproximou-se, fazendo-lhe a cortesia do costume; com a voz já tranqüila, e o modo natural disse:
- Boa noite.
A moça entreabriu a caxemira quanto bastava para tirar os dedos afilados da mão direita, que estendeu ao marido.
- Já? perguntou ela erguendo os olhos entre súplices e despóticos.
O marido estremeceu ao toque sutil dos dedos, que calcavam-lhe docemente a palma da mão:
- Ordena que fique? disse  com a voz trêmula.
- Não. Para que?
O que exprimia essa frase, repassada do sorriso que lhe servia por assim dizer de matiz, ninguém o imaginava.
Seixas retirou-se levando n'alma a mais cruel humilhação que podia infligir-lhe o desprezo dessa mulher.



# Trecho de " Senhora " - José de Alencar.