segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Favores.


A escuridão da noite já cobria o jardim e, mesmo sabendo que deveria entrar, Elizabeth decidiu ficar mais um pouco, relutante em deixar aquela acolhedora intimidade. Cruzando as mãos levemente às costas, olhou para as estrelas que começavam a reluzir no céu.

- Esta é a hora do dia que mais gosto - confessou, num tom suave. Olhou-o de relance, a fim de verificar se ele se aborrecia com o assunto, mas ele havia se virado e olhava para o céu, como se também se interessasse pelo que havia ali.

Elizabeth procurou a constelação da Ursa Maior e a encontrou.

- Veja - disse, indicando a estrela brilhante -, ali está Vénus. Ou será Júpiter? Eu nunca tenho muita certeza.

- É Júpiter. E, mais adiante, está a Ursa Maior.

Ela riu, balançando a cabeça, e desviou os olhos do céu.

- Talvez pareça com um grande urso para você e para todos os outros  - disse.  - Mas, para mim, todas as constelações são apenas um punhado de estrelas juntas. Na primavera até posso encontrar a Cassiopeia, mas não por achá-la semelhante a um leão. No inverno, consigo distinguir a constelação Arcturus, embora não entenda como alguém jamais viu um arqueiro em meio a todo aquele aglomerado de estrelas. Você acha que pode existir vida em algum lugar lá em cima?

Ele virou o rosto, encarando-a com espanto genuíno.
 
- O que você acha?
 
Acho que sim. Na verdade, creio que seja até arrogância presumir que, dentre milhares de estrelas e planetas, nós sejamos os únicos a realmente existir. Quase tão arrogante quanto a antiga crença de que a Terra era o centro do universo, e de que tudo criraria em torno de nós. Embora as pessoas não tenham ficado exatamente agradecidas a Galileu, quando ele provou o contrário, não é? Imagine, ter sido arrastado diante da Inquisição e forçado a renunciar a algo que ele sabia ser verdadeiro, podendo até provar suas teorias!
 
-  Desde quando debutantes estudam astronomia?  -  lan Thornton indagou, quando Elizabeth se virou para pegar a taça que deixara sobre o banco.
 
- Tive muitos e muitos anos de leituras  - ela admitiu, ingenuamente. Sem perceber  a intensidade com que ele a fitava, pegou o copo e tornou a virar-se. - Preciso entrar, agora, e arrumar-me para o baile.
 
Ele assentiu em silêncio, e Elizabeth começou a se afastar. Então mudou de ideia e hesitou, lembrando-se das mesadas das amigas, e no quanto estavam contando com ela.
 
-  Tenho um pedido estranho a lhe fazer... um favor que quero lhe pedir  -  disse, devagar, rezando para que ele tivesse apreciado, tanto quanto ela, a breve e agradável conversa. Sorrindo para os olhos inescrutáveis, juntou:  - Será que o senhor poderia... por motivos que não posso explicar... - calou-se, extremamente embaraçada.
 
- Qual é o favor?
 
Ela despejou tudo de um só fôlego:
 
- Será que poderia convidar-me para dançar, esta noite?
 
A expressão dele não se modificou;  não mostrou-se chocado, nem lisonjeado com o pedido. Porém, dos lábios saiu a resposta firme:
 
- Não.
 
Elizabeth estava mortificada com a recusa, porém ainda mais atónita com o evidente tom de pesar que percebeu na voz dele.
 
Fitou-o por um longo instante, querendo ler a resposta nos traços indecifráveis de seu rosto, até que o som de risos, vindo de algum lugar próximo, quebrou o encanto. Tentando escapar de um apuro em que nunca deveria ter-se metido, Elizabeth juntou as saias, a fim de se retirar. Num esforço consciente para deixar a voz vazia de qualquer emoção, disse, com tranquila dignidade:
 
- Boa noite, sr. Thornton. Atirando longe o charuto, ele assentiu:
 
- Boa noite, srta. Cameron.  - Deu-lhe as costas e se afastou.



#Alguém para Amar - Judith Mcnaught.