quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

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Achei Lúcia reclinada no sofá. Estava matando o tempo, ora examinando o crivo dos punhos e o debuxo do penteador de cambraia, ora cerrando as pálpebras para engolfar o espírito nalguma deliciosa reminiscência.

— Preguiçoso! Há duas horas que o espero! disse dando-me a mão e sorrindo.

— Saí há muito tempo, e não passei por aqui com receio de incomodar-te.

— Tenha bondade de dizer: quem lhe deu o direito de pensar que me incomoda? 
 
— O meu gênio! Desconfio de mim.
 
— Pois o seu gênio enganou-o; fique sabendo que o senhor nunca me pode incomodar a qualquer hora que venha aqui! Nunca; ouviu ?
 
— E quanto tempo durará isso?
 
— Ah! já lhe disseram que sou volúvel! Eles têm razão de o dizer; porém má como sou, ainda assim não me julgue pelo que lhe contarem.
 
— Não te julgo, nem te quero julgar. Conheço-te de ontem; de ontem somente, tu o disseste!
 
— Pois essa que fui ontem continuarei a ser, já que Deus não quis que fosse a outra, que viu da primeira vez.
 
— Não era mais bonita do que a desta noite.
 
— Quem sabe? Mas diga-me, continuou acariciando-me o rosto com a mão travessa; deveras pensou hoje alguma vez em mim, ou esqueceu-se apenas nos separamos?
 
— Tanto, que te trouxe uma lembrança.
 
— Ah! quero ver, sou muito curiosa!
 
Tirei as jóias e dei-lhe; o sorriso faceiro que despontava no lábio murchou de repente.
Atribuí a excesso de curiosidade e atenção, porém ela abrindo lentamente a caixa, lançou-lhe apenas um olhar distraído, e deitou-a sobre a cadeira com uma frieza glacial e um desgosto, que transparecia entre a expressão de forçada amabilidade com que me agradeceu:
 
— Obrigada; não valho tanto!
 
Esse tanto foi dito com uma surda vibração, e profunda, como se a voz que o articulara houvesse ferido interiormente todas as cordas de sua alma. <<Cunha tinha razão, pensei eu; a cupidez e a avareza são as molas ocultas que movem este belo autômato de carne. Está habituada a presentes de milionário; desdenha a migalha do pobre>>.
 
Tive ímpetos de cuspir dos lábios os beijos que recebera e não podia pagar pelo seu justo preço.
 
Abria ela a outra caixa com a mesma lentidão e indiferença; quando súbito expandiu-se num desses enlevos que descem, como ondas de fluido luminoso, da fronte apaixonada e inteligente da mulher que ama. Soltou um pequeno grito de prazer, e agradeceu-me desta vez sem palavras, com um só olhar, mas olhar como ela unicamente os tinha; olhar fundo e longo, que parecia surgir de um abismo e dilatar-se ao infinito.
 
Posso eu descrever-lhe a ingênua alegria e as visagens graciosas e infantis que ela fez diante dessa jóia sem valor? Era a gárrula travessura da criança a quem se deu um brinquedo bonito; a mimosa garridice da menina que festeja o seu primeiro enfeite de moca; as carícias felinas do gato brincando com a tímida presa que vai devorar.
 — Que bonito, meu Deus! exclamava a cada instante. Quero ver como me fica! Hei de trazê-lo sempre!
 
Imediatamente substituiu os brincos que tinha pelos de azeviche, cingiu o colar, e saltando como uma louquinha, correu ao espelho; ai repetiu-se a mesma cena. Apesar da naturalidade e do ímpeto involuntário destes gestos, a minha habitual desconfiança suspeitou naquela efusão de contentamento uma zombaria amarga; supus um momento, que ela pretendia ironicamente fazer-me sentir por esse modo a mesquinhez do presente.
 
Não lhe cause isto surpresa; lembre-se que idéia devia fazer então dessa mulher pelos precedentes que conhecia de sua vida.
 
— Que significa esta admiração fora de propósito, Lúcia? Estou arrependido de te haver oferecido semelhante ninharia; mas cuidei que me perdoasses em atenção à outra, que não me parecia muito digna de tua beleza Não sou rico; e há pouco a indiferença com que recebeste esta pulseira fez-me sentir bem amargamente a minha pobreza. Estou convencido que o fizeste sem querer.
 
Essa criatura tinha a intuição rápida e instantânea, que é no homem a segunda vista do gênio, e em algumas mulheres privilegiadas um instinto sutil do coração. À primeira palavra, a expansiva alegria que vertia de toda sua pessoa caiu-lhe aos  pés. Ficou séria, submissa e envergonhada, como a criança traquinas, que surpreende em flagrante o ralho paterno. Recolheu confusa o adereço e veio sentar-se ao meu lado.
 
— Diz que recebi com indiferença esta pulseira! E qual é a causa da minha alegria? Disfarcei para o senhor não pensar que desejo me venha ser somente pelo valor destes brilhantes. Além disto, quando se recebe mais do que se vale, fica-se acanhada .
 
Compreendo hoje as rápidas transições que se operavam nessa mulher; mas naquela ocasião, como podia adivinhar a causa ignota que transfigurava de repente a cortesã depravada na menina ingênua, ou na amante apaixonada!
 
— Mas por isso não se zangue comigo!
 
E inclinou a face para receber uma carícia.
 
— Torno a pedir-te, Lúcia; nunca me digas o  que não sentes. Tens  o mau gosto de te rebaixares.



# Trecho de " Lucíola " - José de Alencar.