quarta-feira, 13 de outubro de 2010



Regra número dois... - e a minha voz parecia não estar saindo direito enquanto eu ficava olhando para ele. Não era justo. Não era mesmo. Os mortos não deviam ter aquela pinta toda do Jesse, recostado ali na minha cama com o sol entrando de lado e ressaltando suas feições perfeitas...
Ele levantou a sobrancelha, aquela que tinha a ferida.
- Algo errado, mi hermosa? - perguntou. 

(...)

- Quer dizer então que você não me convocou - e ele deu um passo em minha direção - porque está começando a gostar de mim ou algo assim?
Para cúmulo do desânimo, senti que meu rosto começava a se esbrasear. 
- Não - respondi, teimosa. - Nada disso. Só estou tentando respeitar as regras. Que, por sinal, você violou ao acordar o David.
Jesse deu mais um passo na minha direção.
- Eu não podia deixar de acordá-lo. Você tinha dito para eu não ir até o colégio.
Eu não tinha outra escolha. Se não tivesse mandado o seu irmão para ajudá-la, você agora estaria mortinha.
Infelizmente sabia que ele estava certo. Mas é claro que eu não ia reconhecer.
Absolutamente - fui dizendo. - Eu estava com tudo perfeitamente sob controle. Eu...
Você não estava controlando nada - riu-se o Jesse. - Você foi até lá empurrando com a barriga, sem ter planejado nada, sem...
Eu tinha um plano - respondi, furiosa, dando um passo em direção a ele, o que nos deixou de repente quase encostando no nariz um do outro. - Quem você pensa que é, para estar aí dizendo que eu não tinha nenhum plano? Estou acostumada a fazer isto há anos, sabia? Anos! E nunca precisei da ajuda de ninguém. E muito menos de alguém como você.
De repente ele parou de rir. Agora parecia zangado.
Alguém como eu? Como assim? Do que foi mesmo que você me chamou? De caubói?
Não - disse eu. - Estou querendo dizer de alguém morto.
Jesse vacilou, como se eu lhe tivesse dado um murro. 
A partir de agora vamos combinar assim - fui dizendo. - A regra número dois fica sendo que você não se mete no que é meu e eu não me meto no que é seu.
Boa - respondeu ele, curto e grosso.
Boa - fiz eu. - E muito obrigada.
Ele ainda estava zangado. E perguntou, de má vontade:
Por quê?
Por ter salvado a minha vida.
De repente, ele já não parecia zangado. Suas sobrancelhas, que estavam completamente franzidas, relaxaram. Quando eu vi, ele tinha esticado os braços e pôs as mãos nos meus ombros.
Aposto que eu não teria sido apanhada de surpresa daquele jeito se ele tivesse enfiado um garfo em mim. O fato é que estou acostumada a esmurrar fantasmas, mas não estou acostumada a vê-los olharem para mim como se... como se...
Bem, como se fossem me beijar.
Mas antes que eu tivesse tempo de pensar no que ia  fazer - fechar os olhos e deixar que ele fosse em frente ou aplicar a regra número três: proibido qualquer contato físico - a voz da minha mãe veio lá de baixo.
- Suzannah! - chamou ela. - Suzinha, sou eu, estou em casa!
Eu olhei para o Jesse. Ele imediatamente tirou as mãos de mim. Um segundo depois, minha mãe abriu a porta do quarto e o Jesse desapareceu.



# Série " A Mediadora" - "A terra das sombras", Meg Cabot.