terça-feira, 12 de outubro de 2010





Na memória de Eugênio soaram as palavras de Olívia: «Devemos ser um pouco como as cigarras». Era estranho como ele já não se lembrava com precisão do som da voz dela...

- D. Frida! - gritou.
- Uhu! - A resposta jovial veio do fundo da casa.
- Faça o favor de aprontar a Ana Maria. Vamos dar um passeio no parque. 
Ao ouvir estas palavras, Ana Maria, que estava a brincar na cozinha, começou a sapatear e a dar gritos de alegria.
- Não se esqueça do pão pros marrecos! – acrescentou Eugênio.
Assobiando como um colegial, foi até ao quarto de dormir, tirou o roupão, vestiu o paletó, botou a gravata, apanhou o chapéu.
Ana Maria chegou pouco depois, toda alvoroçada. Estava vestida de azul. Parou no meio da sala, pegou nas pontas do vestido e com ar faceiro fez uma meia volta:
- Olha, pai, como a nénê está munita.
E Eugênio reviu nela a Olívia da noite da formatura, no saguão do S. Pedro. O vestido vaporoso, a braçada de rosas vermelhos, a paródia da faceirice feminina...
Sim. No parque, ele pensaria em Olívia. Muito, muito...
Ajoelhou-se, abraçou a filha e beijou-lhe o rosto.
Ana Maria afastou-o com as mãos espalmadas e enrugando a testa numa expressão de contrariedade, choramingou:
- Ai, pai! Tu vai desmanchar os meus bucles.
Eugênio contemplou-a longamente. Era feliz. Aceitava a vida. Quisera que aquele momento leve e luminoso não tivesse fim. Mas sabia como ele era frágil, frágil... Fugia de analisá-lo.
Sentia no fundo do espírito a presença de um pensamento escuro, que estava à espreita... Era preciso não deixar que ele subisse à tona.
- Vamos dar comida pros marrecos? - perguntou a Ana Maria, sacudindo-a. - Vamos dar um passeio no parque?
Ela bateu palmas e pôs-se a pular.
- Vamo! Vamo! Ai que bom! Vamo dá comida pros bicho!
Mas Eugênio agora estava sério. Ana Maria franziu o sobrolho, entortou a cabeça.
- Pai... - estranhou ela. - Quê que tu tem?

(...)

Ana Maria puxou-lhe a manga do casaco, freneticamente.
- Pai bobo! Pai bobo! Pai boobo!
Eugênio baixou os olhos, ainda meio ausente.
- Hem?
- Vamos simbora duma vez. Os marrecos estão com fome.
- Ah...
E de mãos dadas, pai e filha saíram para o Sol.




# Érico Veríssimo - " Olhai os Lirios do Campo".