terça-feira, 12 de outubro de 2010




Eugênio ergueu os olhos para o saguão, que aos poucos se esvaziava. Viu Olívia encostada a uma das colunas, com um ramalhete de rosas vermelhas nos braços. Ergueu-se, pagou a bebida, segurou o diploma e caminhou para ela.
- Abandonada? - perguntou, com um meio sorriso.
Olívia mirou-o por um instante com fingida gravidade e depois, mostrando com um movimento de olhos o canudo que tinha debaixo do braço, disse.
- É o peso do diploma que me deixa um pouco abafada.


(...)


- E agora? - perguntou Eugênio.
Olívia encolheu os ombros.
- A vida continua.
- Eu sei... Mas... e nós?
- Continuamos também.
Ele fez um gesto de impaciência.
- Tu sabes bem o que eu quero dizer... - Apontou para o diploma. - Isso...
- Bota-se num quadro.

Eugênio não teve remédio senão sorrir. Mas não era  só a calma e a naturalidade de Olívia que o faziam sorrir. Era aquele seu estranhíssimo vestido branco e vaporoso, de cintura apertada e alta, de saia comprida e rodada. Nunca a tinha visto assim. Acostumara-se a uma Olívia que andava de preferência de boina, costume simples e sapatos de  tacões baixos. Agora ali estava ela como que pousando para um pintor: encostada à coluna, com ar sonhador e uma braçada de rosas vermelhas... Olhou-a de alto a baixo.
- Parece que vais tirar o retrato.
Olívia deu um passo à frente e começou a girar sobre si própria, parodiando a atitude dos manequins vivos.
- Estou chique?
- Fantástica.
Mas a verdade era que Eugênio estava mesmo impressionado. Pela primeira vez sentia a qualidade feminina da companheira de curso. Era como se estivesse diante de outra Olívia. Habituara-se a ver nela o companheiro de curso, quase um rapaz como os outros.
- Gostas das flores?
Eugênio sacudiu a cabeça afirmativamente e indagou:
- Quem foi que te mandou? - O admirador misterioso.
-Ah...
- Achas naturalmente que eu não posso ter um admirador...
Ele encolheu os ombros. Ela sorriu. 





# Érico Veríssimo - " Olhai os Lirios do Campo".